domingo, 27 de novembro de 2011

E mais uma conferência para coleção...


Uma imensa quantidade de gases do efeito estufa alcançou um novo recorde em 2010, aumentando ainda mais rapidamente do que nas últimas décadas. Por essa razão, uma nova rodada de negociações sob o guarda-chuva da ONU (Organização das Nações Unidas) começa segunda- feira, dia 28 de novembro de 2011 na África do Sul, tendo como plano de fundo o anúncio de emissões recorde de 2010.
Mas não é sobre essa conferência que pretendo escrever, afinal de contas, basta ligar sua TV ou acessar o site do Jornal Folha para acompanhar na íntegra tudo o que acontece LÁ! O que realmente acontece, é que em todos esses anos as "pessoas" apenas falam e falam, no ano seguinte o problema aumenta e elas se reúnem novamente para falar. Bom, se precisássemos ouvir pessoas falando não estaríamos conectados via internet e sim conversando com a vizinha. Brincadeira!
Mas falando sério mesmo, o problema acontece porque há uma grande falha no sistema que estamos acostumados a viver, aliás, todos os sistemas são falhos, mas o capitalismo funciona como um sistema linear: da extração para a produção, para a distribuição, para o consumo e por fim, para o tratamento de lixo. Bom, você deve estar se perguntando: "O que há de errado nesse sistema? Ele parece tão 'bom'!" Mas você se enganou, na verdade esse é um sistema em crise, pois trata- se de um sistema linear, e como sabemos um sistema linear não funciona em um planeta finito. Sem contar que essa não é toda história, ainda falta muita coisa, a começar pelas pessoas, sim as pessoas, ou nós, como preferir. Mas por quê? Porque as pessoas vivem e trabalham em todas as etapas deste sistema, mesmo que umas sejam "mais importantes do que outras", ou seja, maior influência do que outras. E quem seriam elas?
1º- O GOVERNO - Mesmo que 50% dos nossos impostos vão para os militares, vamos nos referir ao governo como se fosse uma pessoa "comum" com valores e visão de que um governo é das pessoas, para as pessoas, pelas pessoas. A função do governo é "cuidar de nós"!
2º- AS CORPORAÇÕES - Entre as 100 maiores economias da Terra, 51 são as corporações, isso nos leva crer que as corporações parecem maiores que o governo.
À medida que as corporações foram crescendo em tamanho e poder, assistimos uma pequena mudança de governo, como se estivessem mais preocupados com o bem estar deles do que com o nosso.
Agora vamos reparar o sistema, sim!?
Começaremos pela extração, a palavra mais "bonita" que existe para o termo "destruição do planeta".

UMA VERDADE: cortamos árvores e arrebentamos montanhas para extrair metais; consumimos toda água e exterminamos os animais. Eis aqui nosso primeiro obstáculo: estamos ficando sem recursos naturais! O problema não é estarmos apenas utilizando os recursos naturais em demasia, mas estar utilizado mais do que podemos. Temos 5% da população mundial, mas usamos 30% dos recursos mundiais. Se todos consumissem ao ritmo dos Estados Unidos, precisaríamos de três a cinco planetas. E sabe uma coisa? Só temos um!
Como resposta, muitos países simplesmente resolvem ir tomar dos outros. Destruindo florestas dos outros, exterminando animais nas terras alheias. Só na Amazônia, perdemos 2000 árvores por minuto. O equivalente a um campo de futebol por minuto!
Os governos e as corporações não são donos destes recursos, mesmo que vivam lá há gerações. Não são donos dos meios de produção e não compram muitas coisas. Neste sistema, quem não possui ou não compra muitas coisas não têm valor. Agora vamos para a produção, aonde utilizamos energia para misturar químicos tóxicos com recursos naturais para produzir produtos contaminados com tóxicos. Enquanto introduzimos as toxinas nos nossos sistemas de produção industrial, continuaremos a inserir este tóxico nos produtos que levamos para nossa casa, trabalho e escola, e claro, para nosso corpo. Como os retardantes de incêndio à base de brometo, que tornam as coisas mais resistentes ao fogo e são super tóxicos.  São neurotóxicos, ou seja, tóxicos para o cérebro.
E o que estamos fazendo usando esses químicos? Pode parecer ruim, ou melhor, é ruim, mas usamos esses químicos em nossos computadores, sofás e até travesseiros. Não sei você, mas acho que em um país com tanto potencial, poderíamos ter uma maneira melhor de evitar que nossas cabeças peguem fogo à noite.
Sabia que essas toxinas se vão acumulando ao longo da cadeia alimentar e se concentram nos nossos corpos? Sabe qual é o alimento do topo da cadeia alimentar com nível mais elevado de químicos tóxicos? O leite materno. Isto significa que os menores membros das nossas sociedades, os nossos bebês, recebem as maiores doses de químicos tóxicos das suas vidas a partir do leite das suas mães. Não acha que é uma incrível violação? A amamentação deveria ser o mais importante ato humano de nutrição. Devia ser algo sagrado e seguro. A amamentação continua a ser o melhor e as mães devem amamentar, mas nós devíamos proteger esse ato! E eu pensava que o governo nos protegia! As pessoas que mais sofrem com estes produtos químicos são os trabalhadores das fábricas, muitos são mulheres em idade reprodutiva que trabalham com toxinas que afetam a gestação, carcinogênicos e muito mais. Agora eu pergunto: “que tipo de mulher, em idade reprodutiva, trabalharia num emprego deste, exposta a estas toxinas, a não ser uma mulher sem alternativa?” Essa é uma das 'maravilhas' deste sistema, a erosão dos ecossistemas e economias locais, garantem um fluxo constante de pessoas sem alternativas. 
No mundo, há 200.000 pessoas por dia se deslocando ambientes que as sustentaram ao longo de gerações, para cidades em que muitas vivem em bairros de lata, à procura de emprego, por mais tóxico que seja.
Não só os recursos são desperdiçados ao longo deste sistema, mas também pessoas. Comunidades inteiras que são desfeitas. Sim, as toxinas entram e saem. Muitas delas saem das fábricas em produtos, e muitas mais que saem como subprodutos ou poluição, e estamos falando de muita poluição.
Nos Estados Unidos, as indústrias admitem liberar mais de 1.800.000 kg de químicos tóxicos por ano. Deve ser muito mais, porque isto é o que eles admitem. Trata-se de outro limite, porque quem quer ver e respirar 1.800.000 kg de químicos tóxicos por ano? Então o que eles fazem? Mudam as fábricas poluidoras para o estrangeiro, para poluir outros países.
Mas, surpresa! Grande parte dessa poluição volta para ao país de origem trazida pelo vento. E o que acontece depois de todos estes recursos naturais serem transformados em produtos? Passa para a distribuição, o que significa vender todo o lixo contaminado com toxinas o mais rapidamente possível. Aqui, o objetivo é manter os preços baixos, com as pessoas comprando os produtos em constante movimento. Como eles mantêm os preços baixos? Pagam salários baixos aos trabalhadores das lojas e restringem o acesso aos seguros de saúde sempre que podem. Tudo se resume em exteriorizar os custos. O verdadeiro custo de produção não se reflete no preço. Em outras palavras, não pagamos aquilo que compramos. As crianças do Congo pagaram com o seu futuro, pois 30% delas abandonam a escola para trabalhar nas minas de coltan, um metal que usamos em aparelhos eletrônicos baratos e descartáveis. Estas pessoas pagaram por não terem direito ao seguro de saúde. Ao longo deste sistema, pessoas contribuíram para que comprássemos coisas e mais coisas. Mas essas contribuições não são registradas por nenhum contabilista. É isto que eu quero dizer com “exteriorizar o verdadeiro custo de produção”.
E isso leva-nos até ao Consumo. O coração do sistema. Aquele que o impulsiona.
É uma etapa tão importante, que se tornou prioridade do governo e das corporações. É por isso que após o 11 de setembro, quando o EUA estava em choque e o presidente Bush poderia ter sugerido fazer luto, rezar, ter esperança... Mas não... Ele disse para fazer compras! Razão pela qual os americanos apresentam maiores índices de consumismo do planeta. Não mães, professores, agricultores, mas consumidores! Assim, o valor das pessoas passou a ser medido conforme seu consumo. E não é isso o que fazem?
Compram, compram, compram... Mantém os produtos circulando.
Sabe qual é a percentagem do total dos produtos que circulam através deste sistema que ainda são usados seis meses depois da venda na América do Norte? 50%? 20%? Não... Um por cento! Um!
Em outras palavras, 99% das coisas que são cultivadas, processadas, transformadas, 99% das coisas que percorrem o sistema são lixo em menos de seis meses. Como é que podemos gerir um planeta com este nível de rendimento?
Mas não foi sempre assim. Hoje, o consumidor médio americano consome o dobro de há 50 anos. Perguntem à vossa avó. No tempo dela a boa gestão, a engenhosidade e a poupança eram valorizados.
Então, como é que isto aconteceu? Bem, não aconteceu simplesmente. Foi planejado. Pouco depois da Segunda Guerra Mundial, as corporações estudavam a forma de impulsionar a economia. O analista de vendas, Victor Leboux, articulou a solução que se tornaria a norma de todo o sistema. Ele disse:
"A nossa enorme economia produtiva exige que façamos do consumo a nossa forma de vida, que tornemos a compra e uso de bens em rituais, que procuremos a nossa satisfação espiritual a satisfação do nosso ego, no consumo... Precisamos que as coisas sejam consumidas, destruídas, substituídas e descartadas a um ritmo cada vez maior.”
O conselheiro econômico do presidente Eisenhower disse:
"O principal objetivo da economia americana é produzir mais bens de consumo."
Mais bens de consumo? O principal objetivo?
Não é providenciar cuidados médicos, ou educação, ou transportes seguros, ou sustentabilidade ou justiça? Como é que eles fazem as apessoas adotarem este sistema de forma tão entusiástica?
Bem, duas das suas estratégias mais bem sucedidas são: a obsolescência planejada e obsolescência perceptiva. Obsolescência planejada é outra forma de dizer "criado para ir para o lixo".
Eles fazem as coisas de modo que sejam inúteis tão rápido quanto possível para as jogarmos fora e voltarmos a comprar. Isso é óbvio em sacolas ou copos de plástico, mas agora se verifica isso em coisas maiores como esfregões, DVDs, máquinas fotográficas, churrasqueiras, quase tudo! Até computadores! Já reparou que quando compra um computador, a tecnologia muda tão rapidamente que em pouco anos se torna quase um impedimento para a comunicação?
Por isso, existe também a obsolescência perceptiva.
A obsolescência perceptiva nos convence a jogar fora coisas que ainda são perfeitamente úteis. Como fazem isso? Mudam a aparência das coisas. E como nosso valor depende da nossa contribuição para o consumo, isso pode ser embaraçoso. Por exemplo, se eu tiver o mesmo monitor de computador gordo e branco na minha mesa por cinco anos, e a minha colega tiver comprado um computador novo, ela vai ter um monitor plano, brilhante que combina com o computador, com o celular e até com as canetas. Ela parece estar operando uma nave espacial, e eu... Pareço que tenho uma máquina de lavar na mesa.
A publicidade e a mídia em geral têm um papel importante nisto.
Cada americano é bombardeado com mais de 3.000 anúncios por dia. Vêem mais publicidade num ano do que as pessoas de há 50 anos viam em toda a vida.
Qual é o objetivo de um anúncio se não nos fazer infelizes com o que temos? Por isso, nos dizem 3.000 vezes por dia que o nosso cabelo está errado, nossa pele, nossas roupas, nossos móveis, nossos carros, nós estamos errados... Mas tudo se resolve se formos às compras. A mídia também ajuda a esconder todas as etapas anteriores.
Por isso, a única parte da economia que vemos são as compras. A extração, produção e envio para o lixo, acontecem fora do nosso campo de visão.
Por isso, nos Estados Unidos temos mais coisas do que tivemos antes, mas pesquisas mostram nossa felicidade declinando.
Nossa felicidade teve o seu pico na década de 1950, a mesma época em que a febre consumista explodiu. Coincidência interessante!
Acho que sei o porquê. Temos mais coisas, porém menos tempo para o que realmente nos faz felizes: amigos, família, tempo livre. Estamos trabalhando mais do que nunca.
Alguns analistas dizem que não temos tão pouco tempo livre desde a sociedade feudal. E sabem quais são as duas atividades que mais fazemos no pouco tempo livre que temos?
Ver televisão e fazer compras! Os americanos passam três a quatro vezes mais tempo comprando do que os Europeus.
Assim, todos nós estamos nesta situação ridícula, vamos trabalhar talvez em dois empregos, e quando chegamos em casa exaustos e sentamos no sofá novo para ver televisão, e os anúncios dizem que não prestamos, então vamos às compras para nos sentirmos melhor, depois trabalhamos mais para pagar o que compramos, e chegamos em casa mais cansados, vemos mais televisão, que nos diz para fazermos compras outra vez, e estamos neste ciclo de "trabalhar- ver- comprar", e podíamos simplesmente parar.
Então, no final, o que acontece a todas estas coisas que compramos?
Neste ritmo de consumo, não cabe tudo em casa, apesar do tamanho médio das casas ter duplicado neste país desde os anos 70. Vai tudo para o lixo.
E isso leva-nos ao Tratamento do lixo.
Esta é a parte da economia de materiais que conhecemos melhor, porque nós temos que levar o lixo até a esquina.
Cada americano produz 2 kg de lixo por dia, o dobro do que fazíam há 30 anos. Todo este lixo, ou é despejado num aterro, que é um grande buraco no chão, ou, ainda pior, primeiro é incinerado e depois despejado num aterro.
As duas formas poluem o ar, o solo, a água, sem esquecer que alteram o clima. A incineração é realmente ruim.
Lembra daqueles tóxicos da fase da produção? Bem, queimar o lixo libera esses tóxicos no ar. Pior ainda, produz supertóxicos novos, como a dioxina.
A dioxina é a substância mais tóxica feita pelo homem, e os incineradores são a principal fonte de dioxinas. Isso significa que podemos parar a principal fonte da mais tóxica substância conhecida e feita pelo homem, simplesmente parando de queimar o lixo. Podemos parar hoje!
Algumas empresas não querem criar aterros e incineradores, por isso também exportam os resíduos.
Então, e a reciclagem? A reciclagem ajuda?
Sim, a reciclagem ajuda.
A reciclagem reduz o lixo e depois reduz a pressão para minerar e colher. Mas reciclar não é suficiente. Reciclar nunca será suficiente, por duas razões:
1º- O lixo que vem de nossas casas é apenas a ponta do iceberg. Para cada saco de lixo que deixamos na esquina, 70 sacos de lixo são criados anteriormente só para fazer o lixo desse saco que deixamos na esquina. Assim, mesmo que pudéssemos reciclar 100% do lixo das nossas casas, não se chegaria ao coração do problema. Além disso, grande parte do lixo não pode ser reciclada, ou porque contém demasiados tóxicos, ou porque é criado de início para não ser reciclável. Como aquelas caixas de suco que têm camadas de metal, papel, plástico, todas coladas. Não dá para separar essas camadas para reciclá-las. 
Como se vê, é um sistema em crise. Por todo o percurso, estamos batendo em limites. Do clima em mudança ao decréscimo da felicidade, Simplesmente não está funcionando. Mas a parte boa de um problema tão generalizado é haver tantos pontos de intervenção: há pessoas trabalhando, há pessoas salvando florestas, pessoas trabalhando em direitos do trabalho, em comércio justo, em consumo consciente, no bloqueio de aterros e incineradoras.
E, muito importante, em recuperar o nosso governo, para que seja realmente pelas pessoas e para as pessoas. Todo este trabalho é criticamente importante, mas as coisas vão realmente começar a se mover quando enxergarmos as ligações, quando enxergarmos o panorama geral. Quando as pessoas ao longo do sistema se unir, podemos reivindicar e transformar este sistema linear em algo novo, um sistema que não desperdice recursos ou pessoas. Porque aquilo de que precisamos nos livrar é da antiga mentalidade de usar e jogar fora. Há uma nova escola de pensamento neste assunto, e é baseada em sustentabilidade e equidade. 
Química verde, zero resíduos, produção em ciclo fechado, energia renovável, economias locais vivas.
Já está acontecendo.
Há quem diga que é irrealista, idealista, que não pode acontecer. Mas eu digo que quem é irrealista são os que querem continuar pelo velho caminho.
O mundo precisa de nós!
Isso é que é sonhar.
Lembre-se que a velha forma não aconteceu por acaso. Não é como a gravidade, com que temos que conviver. As pessoas as criaram, e nós também somos pessoas, por isso vamos criar algo novo e não acreditar que uma simples conferência pode salvar mundo!


Referências bibliográficas

# The Story of Stuff - http://www.storyofstuff.com/

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